IELP NA MÍDIA | É falso que governador de Sergipe tenha publicado decreto para confiscar casas e abolir direito de propriedade privada

Pos­ta­gens nas redes soci­ais dis­tor­cem dis­po­si­ti­vo pre­vis­to na Cons­ti­tui­ção Fede­ral que é mera­men­te repli­ca­do em docu­men­to da ges­tão de Beli­val­do Cha­gas (PSD) e per­mi­te a requi­si­ção de bens em cará­ter tem­po­rá­rio em situ­a­ções extremas

Uma série de pos­ta­gens enga­no­sas em cir­cu­la­ção nas redes soci­ais acu­sam o gover­na­dor de Ser­gi­pe, Beli­val­do Cha­gas (PSD), de ter “abo­li­do o direi­to de pro­pri­e­da­de” e per­mi­ti­do o “con­fis­co de casas” no Esta­do por meio de um decre­to de cala­mi­da­de públi­ca, assi­na­do em 25 de mar­ço, em fun­ção da pan­de­mia de covid-19. Os posts, no entan­to, desin­for­mam sobre um dis­po­si­ti­vo que está pre­vis­to na Cons­ti­tui­ção Fede­ral e que é mera­men­te repro­du­zi­do no documento.

O tre­cho que gerou a polê­mi­ca apa­re­ce no art. 3º do Decre­to Nº. 40.798. Nele, o gover­no do Esta­do auto­ri­za o poder públi­co a “requi­si­tar bens móveis e imó­veis pri­va­dos, ser­vi­ços pes­so­ais e uti­li­za­ção tem­po­rá­ria de pro­pri­e­da­de par­ti­cu­lar, des­de que sejam estri­ta e efe­ti­va­men­te neces­sá­ri­os a mino­rar o gra­ve e imi­nen­te peri­go públi­co, obser­va­das as demais for­ma­li­da­des legais”. A medi­da tem vali­da­de de 180 dias a par­tir de 4 de abril.

O pre­si­den­te do Ins­ti­tu­to de Estu­dos Legis­la­ti­vos e Polí­ti­cas Públi­cas (IELP) e pro­fes­sor de Direi­to do IDP, Rapha­el Sodré Cit­ta­di­no, expli­ca que esse arti­go não aten­ta con­tra o direi­to à pro­pri­e­da­de, nem auto­ri­za o con­fis­co de casas. Na ver­da­de, é ape­nas uma refe­rên­cia a um ins­tru­men­to conhe­ci­do no meio jurí­di­co como requi­si­ção admi­nis­tra­ti­va e que está pre­vis­to na Cons­ti­tui­ção Fede­ral de 1988.

Na par­te que tra­ta dos direi­tos e garan­ti­as fun­da­men­tais, a Cons­ti­tui­ção esta­be­le­ce, em seu art. 5º, que todos os bra­si­lei­ros e estran­gei­ros resi­den­tes no País têm res­guar­da­do o direi­to invi­o­lá­vel “à vida, à liber­da­de, à igual­da­de, à segu­ran­ça e à pro­pri­e­da­de”. A seguir, são men­ci­o­na­dos diver­sos ter­mos que pre­ci­sam ser observados.

A pos­si­bi­li­da­de de requi­si­ção admi­nis­tra­ti­va é expres­sa então no inci­so XXV. “No caso de imi­nen­te peri­go públi­co, a auto­ri­da­de com­pe­ten­te pode­rá usar de pro­pri­e­da­de par­ti­cu­lar, asse­gu­ra­da ao pro­pri­e­tá­rio inde­ni­za­ção ulte­ri­or, se hou­ver dano”, mos­tra a Carta.

“Exis­tem situ­a­ções em que o Esta­do não pode espe­rar cons­ti­tuir uma pro­pri­e­da­de ou um ins­tru­men­to para afas­tar o peri­go públi­co”, expli­ca Cit­ta­di­no. “Ele pre­ci­sa uti­li­zar bens par­ti­cu­la­res que estão dis­po­ní­veis e não há tem­po para fazer o pro­ce­di­men­to lici­ta­tó­rio. Então, ele usa (esses bens e ser­vi­ços pri­va­dos) e depois inde­ni­za em pre­ço justo”.

O advo­ga­do des­ta­ca que essa ação está rela­ci­o­na­da com situ­a­ções extre­mas e apre­sen­ta cará­ter tem­po­rá­rio. A pos­si­bi­li­da­de é afas­ta­da assim que aque­le even­to que colo­ca em ris­co a soci­e­da­de dei­xa de estar presente.

“A requi­si­ção admi­nis­tra­ti­va é uma exce­ção. A regra é o direi­to de pro­pri­e­da­de”, escla­re­ce. “Em situ­a­ções de peri­go, de cala­mi­da­de, é pre­ci­so pro­te­ger a cole­ti­vi­da­de. Entre o patrimô­nio e a vida, a esco­lha é pela vida. Essa é a pon­de­ra­ção que a Cons­ti­tui­ção, nes­se inci­so, faz. São situ­a­ções mui­to carac­te­rís­ti­cas: guer­ra, peri­go públi­co imi­nen­te, se hou­ve um des­li­za­men­to de uma encos­ta e você pre­ci­sa uti­li­zar um guin­das­te, por exem­plo, e tam­bém na saú­de, na ques­tão sanitária.”

Em um con­tex­to de pan­de­mia, o Esta­do pode seguir o que está dis­pos­to na legis­la­ção para requi­si­tar a inter­na­ção de paci­en­tes em hos­pi­tais par­ti­cu­la­res ou garan­tir uma com­pra de equi­pa­men­tos de pro­te­ção para pro­fis­si­o­nais de saú­de, por exem­plo — entre outras situ­a­ções fora da nor­ma­li­da­de, mas que podem ser neces­sá­ri­as para evi­tar colapsos.

Ain­da assim, Cit­ta­di­no obser­va que os gover­nan­tes cos­tu­mam nego­ci­ar a com­pra de vagas e o for­ne­ci­men­to de mate­ri­ais com o setor pri­va­do em vez de pra­ti­car esse tipo de deci­são uni­la­te­ral, que pode gerar con­tes­ta­ções na Justiça.

“Os pro­pri­e­tá­ri­os dos bens podem per­fei­ta­men­te entrar com um man­da­do de segu­ran­ça, inclu­si­ve pre­ven­ti­vo, arguin­do que estão res­pei­tan­do o inte­res­se da cole­ti­vi­da­de na comer­ci­a­li­za­ção, que não estão pra­ti­can­do nenhum tipo de sobre­pre­ço, que todos os bens dis­po­ní­veis para ven­da já estão com­pro­me­ti­dos com ins­ti­tui­ções de saú­de”, obser­va o especialista.

Cit­ta­di­no apon­ta que o sim­ples fato de o ins­tru­men­to ter sido men­ci­o­na­do no decre­to de Ser­gi­pe não sig­ni­fi­ca que o gover­no tem a inten­ção de pra­ti­car o ins­tru­men­to indis­cri­mi­na­da­men­te e de for­ma arbi­trá­ria. “O poder públi­co pre­ci­sa ter uma jus­ta cau­sa para isso, não só pelo fato de estar na pan­de­mia, mas por ser extre­ma­men­te neces­sá­ria para pro­te­ger a vida, a saú­de e o cole­ti­vo”, afirma.

Quan­do a requi­si­ção é fei­ta sem uma jus­ti­fi­ca­ti­va coe­ren­te para a defe­sa do inte­res­se públi­co, a prá­ti­ca pode ser apon­ta­da como ile­gal e incons­ti­tu­ci­o­nal pelo Judi­ciá­rio. Os ges­to­res podem ser res­pon­sa­bi­li­za­dos, inclu­si­ve, depen­den­do da gra­vi­da­de da conduta.

“O con­fis­co, que é enten­di­do como esse ato arbi­trá­rio de toma­da da pro­pri­e­da­de par­ti­cu­lar, é algo abso­lu­ta­men­te afas­ta­do pela nos­sa Cons­ti­tui­ção”, expli­ca o pro­fes­sor. “O gover­nan­te não pode uti­li­zar a requi­si­ção admi­nis­tra­ti­va como sub­ter­fú­gio para o con­fis­co e pode res­pon­der com o afas­ta­men­to de man­da­to por cri­me de usur­pa­ção ou de responsabilidade”.

Gover­no de Ser­gi­pe des­men­tiu a acusação
Em nota divul­ga­da pelas redes soci­ais, o gover­no de Ser­gi­pe clas­si­fi­cou como “ino­por­tu­na, fan­ta­si­o­sa e des­le­al” a publi­ca­ção sobre o assun­to, que teve ori­gem em uma colu­na do jor­na­lis­ta Augus­to Nunes no por­tal R7 e ganhou impul­so com memes na inter­net e um tex­to publi­ca­do pela revis­ta onli­ne Oeste.

O Exe­cu­ti­vo esta­du­al afir­ma que a requi­si­ção admi­nis­tra­ti­va está pre­vis­ta na Cons­ti­tui­ção e tam­bém foi men­ci­o­na­da ante­ri­or­men­te na Lei 13.979/20, assi­na­da pelo pre­si­den­te Jair Bol­so­na­ro e apro­va­da pelo Con­gres­so, em 6 de feve­rei­ro de 2020. A ges­tão afir­ma que a nor­ma apa­re­ce des­de o pri­mei­ro decre­to do Esta­do e não é “nem velha, nem nova, só repetição”.

A legis­la­ção fede­ral cita­da pelo gover­no de Ser­gi­pe dis­põe sobre as medi­das a serem ado­ta­das dian­te da emer­gên­cia de saú­de públi­ca cau­sa­da pelo novo coro­na­ví­rus. O art. 3º, inci­so VII, esta­be­le­ce a pos­si­bi­li­da­de de “requi­si­ção de bens e ser­vi­ços de pes­so­as natu­rais e jurí­di­cas, hipó­te­se em que será garan­ti­do o paga­men­to pos­te­ri­or de inde­ni­za­ção justa”.

O Fato ou Fake, a Agên­cia Lupa e o UOL Con­fe­re tam­bém des­men­ti­ram esse boato.

Aces­se a repor­ta­gem em: https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/e‑falso-que-governador-de-sergipe-tenha-publicado-decreto-para-confiscar-casas-e-abolir-direito-de-propriedade-privada/

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