IELP NA MÍDIA: PL da improbidade pode favorecer investigados, afirmam advogados

Nes­ta quar­ta-fei­ra (16/5), a Câma­ra dos Depu­ta­dos apro­vou o pro­je­to de lei que alte­ra a Lei de Impro­bi­da­de Admi­nis­tra­ti­va. A prin­ci­pal mudan­ça é a neces­si­da­de de com­pro­var o dolo do ges­tor públi­co em come­ter a irre­gu­la­ri­da­de. O tema ago­ra segue para o Senado.

Os crí­ti­cos da legis­la­ção atu­al afir­mam que as regras dei­xam uma ampla mar­gem de inter­pre­ta­ção sobre o que é um ato de impro­bi­da­de. Já os con­trá­ri­os ao PL argu­men­tam que a alte­ra­ção per­mi­ti­rá a impu­ni­da­de. Segun­do advo­ga­dos, os polí­ti­cos que já são inves­ti­ga­dos ou pro­ces­sa­dos podem ser beneficiados.

“Isso se deve ao fato de que o prin­cí­pio cons­ti­tu­ci­o­nal da retro­a­ti­vi­da­de da lei mais bené­fi­ca deve tam­bém ser apli­ca­do ao cam­po admi­nis­tra­ti­vo e judi­ci­al san­ci­o­na­dor (cená­rio no qual se inse­rem os atos de impro­bi­da­de), jus­ta­men­te por­que, assim como a lei penal, a Lei de Impro­bi­da­de tam­bém pre­vê em seu cor­po estru­tu­ral um cole­ti­vo de san­ções e pena­li­da­des. Ou seja, nou­tros ter­mos, é dizer que a retro­a­ti­vi­da­de da lei mais benig­na se inse­re em prin­cí­pio cons­ti­tu­ci­o­nal com apli­ca­bi­li­da­de para todo o exer­cí­cio do jus puni­en­di esta­tal — nes­te se incluin­do a Lei de Impro­bi­da­de”, expli­ca o advo­ga­do Bru­no Bor­ra­gi­ne, cri­mi­na­lis­ta e sócio do escri­tó­rio Bials­ki Advogados.

André Dami­a­ni, advo­ga­do espe­ci­a­li­za­do em Direi­to Penal Econô­mi­co e sócio fun­da­dor do escri­tó­rio Dami­a­ni Soci­e­da­de de Advo­ga­dos, lem­bra que os tri­bu­nais supe­ri­o­res já se mani­fes­ta­ram sobre a pos­si­bi­li­da­de de se ado­tar prin­cí­pi­os cons­ti­tu­ci­o­nais penais, tal qual o prin­cí­pio da retro­a­ti­vi­da­de da lei mais bené­fi­ca, para a apli­ca­ção da lei admi­nis­tra­ti­va san­ci­o­na­do­ra sem­pre que o Esta­do exer­ça o direi­to de punir. “Des­sa for­ma, a pre­va­le­cer este enten­di­men­to, a lei deve­rá, sim, bene­fi­ci­ar os inves­ti­ga­dos e processados”.

Dani­el Ger­ber, espe­ci­a­lis­ta em Direi­to Penal Econô­mi­co e mes­tre em Ciên­ci­as Cri­mi­nais, com foco em ges­tão de cri­ses polí­ti­ca e empre­sa­ri­al, des­ta­ca que o prin­cí­pio da retro­a­ti­vi­da­de de lei bené­fi­ca diz res­pei­to mais espe­ci­fi­ca­men­te à área penal. “Porém, em rela­ção à impro­bi­da­de, o mes­mo posi­ci­o­na­men­to deve ser ado­ta­do. Isso por­que se tra­ta de direi­to admi­nis­tra­ti­vo san­ci­o­na­dor, con­se­quen­te­men­te uma subes­pé­cie do direi­to puni­ti­vo, razão pela qual novas leis que limi­tam a ati­vi­da­de repres­so­ra do Esta­do, sem dúvi­da algu­ma, devem não ape­nas ter apli­ca­ção ime­di­a­ta, como retro­a­gir aos casos ain­da em anda­men­to”, pontua

Rapha­el Sodré Cit­ta­di­no, pre­si­den­te do Ins­ti­tu­to de Estu­dos Legis­la­ti­vos e Polí­ti­cas Públi­cas (Ielp), afir­ma que até mes­mo pro­ces­sos em segun­da ins­tân­cia podem ser afe­ta­dos. “Sobre­tu­do no pon­to em que a refor­ma pro­põe a res­pon­sa­bi­li­za­ção de altas auto­ri­da­des ape­nas no caso de atu­a­ção ime­di­a­ta e dolo­sa, afas­tan­do a res­pon­sa­bi­li­da­de quan­do o ato for impu­tá­vel a seus subor­di­na­dos ou inter­me­diá­ri­os. Tam­bém esta­be­le­ce um con­cei­to de dolo mais rigo­ro­so que aque­le apli­cá­vel na esfe­ra penal: não bas­ta­rá que a ação ilí­ci­ta seja volun­tá­ria e cons­ci­en­te, sen­do neces­sá­rio inves­ti­gar se o agen­te públi­co quis ou não vio­lar a lei. Além do mais, esta­be­le­ce um novo sis­te­ma de nuli­da­des que pode­rá reper­cu­tir em ações já em tra­mi­ta­ção”, diz.

Segun­do Cit­ta­di­no, caso não haja com­pro­va­ção de dolo no pro­ces­so já em tra­mi­ta­ção, ele pode ser arqui­va­do. Um tre­cho do tex­to pro­pos­to esta­be­le­ce que “a ile­ga­li­da­de, sem a pre­sen­ça de dolo que a qua­li­fi­que, não con­fi­gu­ra ato de impro­bi­da­de”. Já outro dis­po­si­ti­vo ins­ti­tui que o juiz, em qual­quer momen­to do pro­ces­so, jul­gue a deman­da impro­ce­den­te se veri­fi­car a ine­xis­tên­cia do ato de impro­bi­da­de. “Mais do que arqui­va­men­to, have­ria no caso a ‘impro­ce­dên­cia’, um jul­ga­men­to de méri­to que impe­de a repro­po­si­tu­ra da ação”, analisa.

Bor­ra­gi­ne con­cor­da. “Umas das mais impor­tan­tes novi­da­des da refor­ma da Lei de Impro­bi­da­de é a inclu­são de arti­go espe­cí­fi­co, que somen­te auto­ri­ze a puni­ção por atos comis­si­vos ou omis­si­vos pra­ti­ca­dos com dolo, dife­ren­ci­an­do-se, pois, atos ímpro­bos dolo­sos de atos ímpro­bos de mera volun­ta­ri­e­da­de. Com isso, para os casos em trâ­mi­te e nos quais, hipo­te­ti­ca­men­te, não hou­ve indi­ca­ção expres­sa de ato dolo­so de impro­bi­da­de, será pos­sí­vel reque­rer arqui­va­men­to sumá­rio com fun­da­men­to na retro­a­ti­vi­da­de da lei mais benigna”.

Repor­ta­gem ori­gi­nal­men­te publi­ca­da em: https://www.conjur.com.br/2021-jun-17/pl-improbidade-favorecer-investigados-afirmam-advogados

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