OPINIÃO: As alterações no Kit Obstrução na Câmara dos Deputados

Rodri­go Bedritichuk*

Nival­do Fer­rei­ra Júnior**

 

A Câma­ra dos Depu­ta­dos apro­vou recen­te­men­te a mais abran­gen­te refor­ma regi­men­tal da últi­ma déca­da. A mudan­ça foi fru­to de pro­je­to do Depu­ta­do Eli Bor­ges, rela­ta­da pelo Pri­mei­ro Vice-Pre­si­den­te da Casa, Depu­ta­do Mar­ce­lo Ramos (PRC 84/2019, BRASIL, 2019), resul­tan­do na edi­ção da Reso­lu­ção da Câma­ra dos Depu­ta­dos de nº 21, de 2021 (BRASIL, 2021).

A refor­ma pode vari­ar, con­for­me a óti­ca de aná­li­se do pro­ces­so legis­la­ti­vo, entre a oti­mi­za­ção dos tra­ba­lhos par­la­men­ta­res ou uma medi­da não demo­crá­ti­ca que impe­de a regu­lar atu­a­ção da opo­si­ção e da minoria.

Atu­a­li­za­ção necessária

Há mui­to que se cons­truiu na Casa a per­cep­ção de que o Regi­men­to Inter­no (BRASIL, 1989), apro­va­do ain­da em 1989, esta­va defa­sa­do, neces­si­tan­do de adap­ta­ção que o atu­a­li­zas­se tan­to em rela­ção às evo­lu­ções tec­no­ló­gi­cas das duas últi­mas déca­das quan­to em rela­ção à rea­li­da­de do qua­dro polí­ti­co-par­ti­dá­rio naci­o­nal. De fato, os avan­ços tec­no­ló­gi­cos, prin­ci­pal­men­te a digi­ta­li­za­ção pro­ces­su­al e, mais recen­te­men­te, a rea­li­da­de da deli­be­ra­ção vir­tu­al, exi­gem um par­la­men­to ágil e com menos burocracia.

Da mes­ma for­ma, o atu­al qua­dro ins­ti­tu­ci­o­nal par­ti­dá­rio faz da Câma­ra dos Depu­ta­dos a mais frag­men­ta­da do mun­do, hoje con­tan­do com 26 par­ti­dos repre­sen­ta­dos. Olhan­do-se por esse pris­ma, a neces­si­da­de de alte­ra­ção, por­tan­to, não tem matriz ide­o­ló­gi­ca, mas se assen­ta na urgên­cia de se con­ce­der mai­or logi­ci­da­de às dis­po­si­ções pro­ce­di­men­tais vigentes.

Nes­se aspec­to, por­tan­to, a recen­te alte­ra­ção regi­men­tal pode ser enca­ra­da ine­qui­vo­ca­men­te como a atu­a­li­za­ção de um Regi­men­to ana­ló­gi­co para a era digi­tal. O para­dig­ma clás­si­co de um par­la­men­to que assis­te sen­ta­do aos dis­cur­sos de seus pares para for­mar sua con­vic­ção sobre os temas e expres­sá-la no voto foi sen­si­vel­men­te alte­ra­do por um mode­lo que pri­vi­le­gia o dina­mis­mo das negociações.

Fazem par­te des­se con­jun­to de mudan­ças o fim do tem­po das ses­sões deli­be­ra­ti­vas ordi­ná­ri­as, a pos­si­bi­li­da­de de sus­pen­são da reu­nião e de deter­mi­na­ção de vota­ção nomi­nal pelo Pre­si­den­te da Casa, a veda­ção de deci­sões con­tra­di­tó­ri­as e a alte­ra­ção no ins­ti­tu­to dos destaques.

Fim do tem­po da Ordem do Dia

A Ordem do Dia das ses­sões deli­be­ra­ti­vas ordi­ná­ri­as tinha limi­te tem­po­ral de 3 horas, pror­ro­gá­vel uma úni­ca vez por mais uma hora. O dis­po­si­ti­vo era ana­crô­ni­co e con­tra­di­tó­rio, pois, se pre­ten­dia limi­tar o exer­cí­cio diá­rio da ati­vi­da­de legis­la­ti­va em ple­ná­rio, con­fe­rin­do algu­ma ordem e pre­vi­si­bi­li­da­de, fazia jus­ta­men­te o con­trá­rio, já que o encer­ra­men­to da ses­são usu­al­men­te leva­va à con­vo­ca­ção de suces­si­vas ses­sões extra­or­di­ná­ri­as que não raro vara­vam madru­ga­da adentro.

Ao revo­gar o limi­te tem­po­ral da ses­são (art. 66, III), a refor­ma atu­al ape­nas con­sa­gra o prin­cí­pio de que a polí­ti­ca não tem hora pré-esta­be­le­ci­da para ocor­rer, pois pos­sui lógi­ca pró­pria, e dinâ­mi­ca dife­ren­te, por exem­plo, de ses­sões judi­ci­ais dos tribunais.

Sus­pen­são e vota­ção nomi­nal de ofício

As prer­ro­ga­ti­vas do Pre­si­den­te da Casa foram alar­ga­das para per­mi­tir que ele con­du­za as ses­sões com mai­or fle­xi­bi­li­da­de, sen­sí­vel ao anda­men­to das nego­ci­a­ções polí­ti­co-par­ti­dá­ri­as. Mudan­ça nes­se sen­ti­do foi a pre­vi­são expres­sa de que o Pre­si­den­te pos­sa sus­pen­der a ses­são pelo pra­zo máxi­mo de uma hora (art. 70). A sus­pen­são já fazia par­te do modus ope­ran­di da Casa, mas não tinha pre­vi­são regi­men­tal cla­ra, o que podia levar a abu­sos do instituto.

Ago­ra, con­fe­re-se essa prer­ro­ga­ti­va ao Pre­si­den­te para que ele pos­sa exer­cê-la, de ofí­cio, den­tro de um limi­te defi­ni­do. Mas por que a neces­si­da­de de sus­pen­são? Para se per­mi­tir, por exem­plo, um ambi­en­te pro­pí­cio às arti­cu­la­ções polí­ti­cas, pois o deba­te aca­lo­ra­do em ple­ná­rio pare­ce mui­tas vezes esgo­tar a pos­si­bi­li­da­de de diá­lo­go e a cons­tru­ção de alter­na­ti­vas. Com a sus­pen­são, geral­men­te secun­da­da pela pro­pos­ta de reu­nião de líde­res e rela­to­res nos bas­ti­do­res em tor­no de um tex­to de con­sen­so, a con­ci­li­a­ção é facilitada.

Outra prá­ti­ca cor­ren­te na Câma­ra dos depu­ta­dos cris­ta­li­za­da pela refor­ma em nor­ma regi­men­tal é a prer­ro­ga­ti­va de o Pre­si­den­te deter­mi­nar, de ofí­cio, que deter­mi­na­da vota­ção seja fei­ta nomi­nal­men­te (art. 186, II). Ao coman­dar os tra­ba­lhos de uma ses­são, o Pre­si­den­te pos­sui uma visão polí­ti­ca pri­vi­le­gi­a­da sobre os pon­tos de con­sen­so e os pon­tos polê­mi­cos de uma pro­po­si­ção. A pos­si­bi­li­da­de de deter­mi­nar uma vota­ção nomi­nal de ofí­cio obe­de­ce ao prin­cí­pio da eco­no­mia pro­ces­su­al, pois, sen­do evi­den­te que a ses­são se enca­mi­nha nes­se sen­ti­do, tal pro­vi­dên­cia ser­ve para pou­par vota­ções pro­ce­di­men­tais desnecessárias.

Veda­ção de deci­sões contraditórias

Há mais de dez anos, deci­sões toma­das pela Pre­si­dên­cia da Câma­ra, no âmbi­to de ques­tões de ordem (nº 33/2011; nº 276/2013; nº 2.018/2016) indi­cam que não se deve tomar no ple­ná­rio deci­sões con­tra­di­tó­ri­as em sequên­cia. Esse enten­di­men­to ago­ra é nor­ma regi­men­tal pre­vis­ta nos arts. 155, I; 157, 3º‑A e 163, IX.

Assim, segun­do o art. 163, I, rejei­ta­do reque­ri­men­to de reti­ra­da de pau­ta para deter­mi­na­da pro­po­si­ção com pare­ce­res já pro­fe­ri­dos, é iló­gi­co deli­be­rar-se, em sequên­cia, reque­ri­men­to de adi­a­men­to de dis­cus­são uma vez que ambos os reque­ri­men­tos (de reti­ra­da de pau­ta e de adi­a­men­to de dis­cus­são), nes­te exem­plo, têm obje­ti­vo exa­ta­men­te igual. Da mes­ma for­ma, para pro­po­si­ção com reque­ri­men­to de urgên­cia apro­va­do, não é pos­sí­vel a apre­sen­ta­ção de reque­ri­men­to de reti­ra­da de pau­ta na mes­ma ses­são (art. 155, pará­gra­fo úni­co, I, II). Tais medi­das evi­tam deci­sões con­tra­di­tó­ri­as, home­na­gei­am o prin­cí­pio da eco­no­mia pro­ces­su­al e dão logi­ci­da­de às dis­po­si­ções regimentais.

Des­ta­ques

O ins­ti­tu­to dos des­ta­ques sofreu alte­ra­ção con­si­de­rá­vel, pois dei­xou de ser con­si­de­ra­do pelo Regi­men­to como um reque­ri­men­to pro­ce­di­men­tal para ser um ins­tru­men­to regu­lar do pro­ces­so de vota­ção (art. 161). Essa refor­mu­la­ção do ins­ti­tu­to tor­na o jogo polí­ti­co mais pre­vi­sí­vel e favo­re­ce o deba­te subs­tan­ti­vo da matéria.

Até então o des­ta­que era vei­cu­la­do por meio de um reque­ri­men­to, que deve­ria ser apro­va­do pelo ple­ná­rio. Des­de 1996, nas­ceu a figu­ra do “des­ta­que de ban­ca­da”, per­mi­tin­do que tre­chos da pro­po­si­ção ou emen­das fos­sem des­ta­ca­das dire­ta­men­te, sem a neces­si­da­de de apro­va­ção de reque­ri­men­to pelo ple­ná­rio. Isso fez com que o “des­ta­que sim­ples” caís­se em desu­so ao lon­go do tem­po. Per­mi­tia-se sua apre­sen­ta­ção, mas na prá­ti­ca todos os reque­ri­men­tos de des­ta­que sim­ples eram rejei­ta­dos em glo­bo, per­ma­ne­cen­do ape­nas os des­ta­ques de bancada.

Ago­ra, faz-se uma mudan­ça con­cei­tu­al, con­si­de­ran­do como regra o des­ta­que de ban­ca­da, inde­pen­den­te de reque­ri­men­to, dei­xan­do o reque­ri­men­to indi­vi­du­al de des­ta­que como uma exce­ção resi­du­al com pou­ca chan­ce de uti­li­za­ção, já que, com a refor­ma, neces­si­ta do apoi­a­men­to da una­ni­mi­da­de dos líde­res par­ti­dá­ri­os para sua apre­sen­ta­ção (art. 161, § 4º).

Em sín­te­se, na nos­sa opi­nião, tem-se que a sus­pen­são e a deter­mi­na­ção de vota­ção nomi­nal de ofí­cio; a veda­ção regi­men­tal de deli­be­ra­ção suces­si­va de reque­ri­men­tos de cunhos con­tra­di­tó­ri­os e a ado­ção do des­ta­que de ban­ca­da como regra geral tra­du­zem-se como trans­for­ma­ção em nor­ma escri­ta de prá­ti­cas ado­ta­das há anos, o que demons­tra que a refor­ma apro­va­da, ao menos para essas par­tes, apre­sen­ta-se como fru­to da evo­lu­ção gra­du­al[1] e natu­ral das nor­mas jurí­di­cas, sem o intui­to de dimi­nuir o espa­ço de atu­a­ção das minorias.

Pro­ces­so legis­la­ti­vo e democracia

Há alte­ra­ções regi­men­tais, con­tu­do, que tra­zem inda­ga­ções sobre uma limi­ta­ção do regu­lar direi­to das mino­ri­as. A pro­pó­si­to, a refor­ma ganhou noto­ri­e­da­de nos mei­os de impren­sa como a “limi­ta­ção do kit obs­tru­ção”. Mas até que pon­to o cha­ma­do “kit obs­tru­ção” faz par­te do direi­to da opo­si­ção? Limi­tá-lo sig­ni­fi­ca limi­tar o deba­te repre­sen­ta­ti­vo, e assim a democracia?

Para res­pon­der a esse ques­ti­o­na­men­to, se faz neces­sá­ria a con­tex­tu­a­li­za­ção do atu­al está­gio das rela­ções entre Exe­cu­ti­vo e Legis­la­ti­vo bra­si­lei­ros, no âmbi­to do deno­mi­na­do pre­si­den­ci­a­lis­mo de coa­li­zão. Res­ta de há mui­to demons­tra­do que as comis­sões per­ma­nen­tes da Câma­ra dos Depu­ta­dos têm desem­pe­nha­do um papel mui­to aquém daque­le para o qual foram ima­gi­na­das. Reque­ri­men­tos de urgên­cia reti­ram des­sas are­nas a dis­cus­são das pro­po­si­ções mais poli­ti­ca­men­te impac­tan­tes e colo­cam o Ple­ná­rio como o locus mais impor­tan­te na for­ma­ta­ção das polí­ti­cas públi­cas de inte­res­se do Gover­no (PEREIRA;  MUELLER, 2004).

Con­tu­do, o deba­te pro­fun­do de qual­quer pro­po­si­ção é melhor rea­li­za­do pelas comis­sões, órgão legi­fe­ran­tes com com­pe­tên­cia temá­ti­ca espe­ci­a­li­za­da, cujas regras regi­men­tais pri­vi­le­gi­am a dis­cus­são exaus­ti­va pelos pares e o ama­du­re­ci­men­to do deba­te. Em ple­ná­rio, além do tem­po dimi­nu­to para o deba­te legis­la­ti­vo, ain­da há a cen­tra­li­za­ção dos tra­ba­lhos nas mãos de líde­res par­ti­dá­ri­os, reti­ran­do do todo da casa o pri­vi­lé­gio de par­ti­ci­par a fun­do das dis­cus­sões temá­ti­cas (LIMONGI; FIGUEIREDO, 1998).

Assim, embo­ra o espí­ri­to da refor­ma regi­men­tal tenha sido dimi­nuir os reque­ri­men­tos inci­den­tais do pro­ces­so legis­la­ti­vo e pri­vi­le­gi­ar a dis­cus­são de méri­to, sur­gem ques­ti­o­na­men­tos sobre a rela­ção entre pro­ces­so legis­la­ti­vo e demo­cra­cia. Será, por exem­plo, que ao se impe­dir a dis­cus­são ou a vota­ção por par­tes de deter­mi­na­das pro­po­si­ções mais den­sas não se abdi­ca do mis­ter par­la­men­tar, e do direi­to da mino­ria, de dis­cu­tir a fun­do a con­for­ma­ção das regras que irão reger o teci­do soci­al? Não seri­am essas pos­si­bi­li­da­des regi­men­tais um pali­a­ti­vo à cres­cen­te per­da de impor­tân­cia das comis­sões temá­ti­cas no pro­ces­so de toma­da de deci­sões polí­ti­cas no Legislativo?

Nes­sa limi­ta­ção do “kit obs­tru­ção”, a refor­ma recen­te do RICD revo­gou três tipos de reque­ri­men­tos pro­ce­di­men­tais e redu­ziu o esco­po dos demais.

Limi­ta­ção dos reque­ri­men­tos procedimentais

Foi revo­ga­do o reque­ri­men­to de dis­cus­são par­ce­la­da da pro­po­si­ção, bem como o reque­ri­men­to de vota­ção par­ce­la­da. Isso impli­ca que a dis­cus­são abran­ge­rá sem­pre a tota­li­da­de da pro­po­si­ção, e que a vota­ção tam­bém será em blo­co, sem pre­juí­zo dos des­ta­ques apre­sen­ta­dos. Além dis­so, foi revo­ga­do o reque­ri­men­to de vota­ção indi­vi­du­al das emendas.

Tais reque­ri­men­tos na prá­ti­ca rara­men­te eram apro­va­dos, a não ser quan­do pre­vi­a­men­te acor­da­dos na reu­nião de líde­res com a pre­si­dên­cia da Câma­ra[2], sen­do ape­nas ins­tru­men­tos pro­te­la­tó­ri­os do pro­ces­so deci­só­rio. Nes­se pris­ma, a refor­ma ape­nas con­so­li­da um tipo de enca­mi­nha­men­to já em uso, de for­ma que a abo­li­ção des­ses reque­ri­men­tos se mos­tra con­sen­tâ­nea com o espí­ri­to da refor­ma, de atu­a­li­zar o Regi­men­to para um mode­lo mais dinâ­mi­co de nego­ci­a­ção política.

Por outro lado, dian­te da men­ci­o­na­da insu­fi­ci­ên­cia da ins­tru­ção pelas comis­sões, é de se ques­ti­o­nar se a veda­ção abso­lu­ta des­ses reque­ri­men­tos não impli­ca algum pre­juí­zo ao apro­fun­da­men­to dos deba­tes na Casa, pois, em tese, tais reque­ri­men­tos se afi­gu­ra­vam como meca­nis­mos para fre­ar o aço­da­men­to na apre­ci­a­ção das pro­pos­tas, prin­ci­pal­men­te das mais com­ple­xas, como códi­gos ou mar­cos legais.

Outros reque­ri­men­tos pro­ce­di­men­tais tive­ram limi­ta­ção com rela­ção ao enca­mi­nha­men­to (art. 117, § 1º). Anti­ga­men­te, o autor do reque­ri­men­to e os líde­res podi­am enca­mi­nhar diver­sos reque­ri­men­tos pro­ce­di­men­tais pelo pra­zo de cin­co minu­tos. Con­si­de­ran­do o incha­ço de lide­ran­ças, fru­to da frag­men­ta­ção do sis­te­ma par­ti­dá­rio bra­si­lei­ro, tal dis­po­si­ti­vo sig­ni­fi­ca­va mais de uma hora da ses­são con­su­mi­da ape­nas pelo enca­mi­nha­men­to de reque­ri­men­tos. A refor­ma limi­tou o enca­mi­nha­men­to ao autor e a ape­nas mais dois depu­ta­dos, um favo­rá­vel e um con­trá­rio, redu­zin­do o tem­po para três minu­tos, o que pre­ten­de ganhar tem­po na ses­são para as dis­cus­sões substanciais.

Já o reque­ri­men­to de que­bra de inters­tí­cio para veri­fi­ca­ção de vota­ção antes do decur­so de uma hora pas­sa a ser oral, veda­da a sua dis­cus­são, enca­mi­nha­men­to ou ori­en­ta­ção de ban­ca­da, sen­do apre­ci­a­do pelo pro­ces­so sim­bó­li­co (art. 185, § 6º). Na prá­ti­ca, o reque­ri­men­to sobre­vi­veu ape­nas for­mal­men­te, pois, em sua for­ma oral, tão logo seja apre­sen­ta­do, a con­sequên­cia é que será fatal­men­te rejei­ta­do sim­bo­li­ca­men­te pelo ple­ná­rio, sem repre­sen­tar atra­so no pros­se­gui­men­to das votações.

Pers­pec­ti­vas futuras

Em linhas gerais, a refor­ma regi­men­tal empre­en­di­da pela Câma­ra atu­a­li­za diver­sos ins­ti­tu­tos do pro­ces­so legis­la­ti­vo para adequá-los à nova rea­li­da­de, dinâ­mi­ca e digi­tal, das nego­ci­a­ções polí­ti­cas. Impri­me mai­or logi­ci­da­de à ses­são e reti­ra dis­po­si­ti­vos ana­crô­ni­cos do Regimento.

A dimi­nui­ção do esco­po pro­te­la­tó­rio das mino­ri­as, neces­sá­ria pela cir­cuns­tân­cia momen­tâ­nea da frag­men­ta­ção par­ti­dá­ria da Casa, pode, toda­via, tra­zer ques­ti­o­na­men­tos com rela­ção ao que se cons­ti­tui como um núcleo essen­ci­al do direi­to da minoria.

Com a limi­ta­ção dos reque­ri­men­tos pro­ce­di­men­tais, a expec­ta­ti­va é que se redu­zam os expe­di­en­tes pro­te­la­tó­ri­os e o deba­te fique cen­tra­do em tor­no de pon­tos cha­ve de deter­mi­na­da pro­pos­ta. Nes­se cená­rio, os des­ta­ques adqui­rem mai­or importância.

Uma con­sequên­cia pos­sí­vel é a alte­ra­ção de pos­tu­ra das mino­ri­as, dei­xan­do de lado uma estra­té­gia de tudo ou nada (com os inú­me­ros ins­tru­men­tos do kit obs­tru­ção) e de obs­tru­ção sis­te­má­ti­ca, para uma atu­a­ção con­cen­tra­da em des­ta­ques de dis­po­si­ti­vos-cha­ve da pro­po­si­ção. Isso pode levar à apro­va­ção de uma legis­la­ção canhes­tra e em mui­tos aspec­tos con­tra­di­tó­ria, já que, ao cen­trar sua aten­ção nos des­ta­ques, é pos­sí­vel que as mino­ri­as con­si­gam alte­rar pon­tos ful­crais de deter­mi­na­do pro­je­to, deixando‑o des­fi­gu­ra­do de sua inten­ção primeira.

É pos­sí­vel tam­bém que aumen­te o fenô­me­no da obs­tru­ção cru­za­da[3], quan­do uma ban­ca­da par­ti­dá­ria apre­sen­ta ins­tru­men­tos de obs­tru­ção em outra are­na deci­só­ria com o obje­ti­vo de tra­var as nego­ci­a­ções na are­na prin­ci­pal. Sem o ins­tru­men­tal de obs­tru­ção em ple­ná­rio de que dis­pu­nha até então, é pos­sí­vel que as mino­ri­as cer­rem filei­ras em novos fronts de atu­a­ção, exi­gin­do mai­or coor­de­na­ção por par­te da maioria.

 

* Rodri­go Bedri­ti­chuk é Ser­vi­dor do Sena­do Fede­ral, Secre­tá­rio de Comis­sões Mis­tas para Medi­das pro­vi­só­ri­as e pro­fes­sor de Pro­ces­so Legislativo.

** Nival­do Fer­rei­ra Júni­or é Ser­vi­dor da Câma­ra dos Depu­ta­dos, Secre­tá­rio da Comis­são de Finan­ças e Tri­bu­ta­ção e  pro­fes­sor de Pro­ces­so Legislativo.

 

NOTAS:

[1] Con­for­me defi­ni­ção dada para o ter­mo “mudan­ça nor­ma­ti­va gra­du­al” por ROCHA (2016).

[2] Fer­rei­ra Júni­or, 2013, por exem­plo, apon­ta acor­do nes­se sen­ti­do para a deli­be­ra­ção do Pro­je­to de Lei 1.210/2007 — Refor­ma Política.

[3] Esse fenô­me­no de obs­tru­ção de itens ante­ri­o­res da pau­ta, ou mes­mo obs­tru­ções em are­nas dis­tin­tas, para invi­a­bi­li­zar a deli­be­ra­ção de item pos­te­ri­or ou em are­na diver­sa está bem escla­re­ci­do em BEDRITICHUK, 2017.

 

REFERÊNCIAS:

BRASIL, CÂMARA DOS DEPUTADOS (1989). Reso­lu­ção nº 17, de 1989. Apro­va o Regi­men­to Inter­no da Câma­ra dos Depu­ta­dos. Ver­são com as atu­a­li­za­ções inse­ri­das até a Reso­lu­ção 21, de 2021. Dis­po­ní­vel em https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/regimento-interno-da-camara-dos-deputados/arquivos‑1/RICD%20atualizado%20ate%20RCD%2021–2021.pdf.

BRASIL, CÂMARA DOS DEPUTADOS (2019). Pro­je­to de Reso­lu­ção 84, de 2019. Disp.  em https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2208771.

BRASIL, CÂMARA DOS DEPUTADOS (2021). Reso­lu­ção da Câma­ra dos Depu­ta­dos nº 21, de 2011. Disp.  em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/rescad/2021/resolucaodacamaradosdeputados-21–12-maio-2021–791358-norma-cd-presi.html

BEDRITICHUK, Rodri­go R. Da popu­la­ri­da­de ao impe­a­ch­ment: medi­das pro­vi­só­ri­as, mudan­ças ins­ti­tu­ci­o­nais e a cri­se polí­ti­ca no Gover­no Dil­ma. Bra­sí­lia: Sena­do Fede­ral, 2017.

FERREIRA JÚNIOR, Nival­do Adão. Refor­ma polí­ti­ca na Câma­ra dos Depu­ta­dos: a rejei­ção polí­ti­ca do mode­lo de lis­ta fecha­da e finan­ci­a­men­to públi­co exclu­si­vo. 2013.) 2013_NivaldoAdaoFerreiraJunior.pdf

LIMONGI, Fer­nan­do; FIGUEIREDO, Arge­li­na. Bases Ins­ti­tu­ci­o­nais do Pre­si­den­ci­a­lis­mo de Coa­li­zão. Lua Nova, n. 44, São Pau­lo, p. 82–106, 1998.

PEREIRA, Car­los; MUELLER, Ber­nar­do. A The­ory of Exe­cu­ti­ve Domi­nan­ce of Con­gres­si­o­nal Poli­tics: The Com­mit­tee Sys­tem in the Bra­zi­li­an Hou­se of Depu­ti­es. The Jour­nal of Legis­la­ti­ve Stu­di­es, v. 10, spring 2004.

ROCHA, Alde­nir Bran­dão da. Refor­ma polí­ti­ca: o gra­du­a­lis­mo e seus efei­tos. 2016. 140 f., il. Dis­ser­ta­ção (Mes­tra­do em Ciên­cia Polí­ti­ca. Uni­ver­si­da­de de Bra­sí­lia, Bra­sí­lia, 2016. http://repositorio.unb.br/handle/10482/22114

 

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