OPINIÃO: Por que Bolsonaro é campeão de vetos derrubados?

Por Mar­cos Queiroz*

Na sema­na que pas­sou, Jair Bol­so­na­ro ampli­ou seu recor­de de vetos pre­si­den­ci­ais der­ru­ba­dos pelo Con­gres­so Naci­o­nal, alcan­çan­do a incrí­vel mar­ca de 41. Esse dado con­ta­bi­li­za ape­nas o núme­ro de pro­je­tos que foram veta­dos inte­gral ou par­ci­al­men­te e foram rever­ti­dos pelos par­la­men­ta­res, inde­pen­den­te­men­te da quan­ti­da­de de dis­po­si­ti­vos (arti­gos, pará­gra­fos, inci­sos e alíneas).

O alto núme­ro evi­den­cia os con­fli­tos de opi­nião entre Exe­cu­ti­vo e Legis­la­ti­vo. Porem, antes de ana­li­sar tal par­ti­cu­la­ri­da­de cabe expli­car o que é um veto e como ele é ana­li­sa­do. Tra­ta-se de um ato do pre­si­den­te da Repú­bli­ca no qual mani­fes­ta dis­cor­dân­cia a um pro­je­to apro­va­do pelo Legis­la­ti­vo no momen­to de sua con­ver­são em lei. Ele pode ser par­ci­al, inci­din­do sobre ape­nas uma par­te do tex­to, ou total, quan­do todo o con­teú­do é veta­do e o tex­to não se trans­for­ma em lei. O pra­zo para que essa deci­são pre­si­den­ci­al ocor­ra é de 15 dias úteis a par­tir do rece­bi­men­to do pro­je­to apro­va­do. O veto pode ser fun­da­men­ta­do de duas for­mas: jurí­di­co, quan­do há afron­ta a nor­mas cons­ti­tu­ci­o­nais; ou polí­ti­co, sob a ale­ga­ção de con­tra­ri­e­da­de ao inte­res­se público.

Um veto só é der­ru­ba­do se for rejei­ta­do por mai­o­ria abso­lu­ta de votos em ambas as casas (257 votos na Câma­ra e 41 votos no Sena­do). Quan­do isso ocor­re, o veto der­ru­ba­do é envi­a­do nova­men­te ao pre­si­den­te da Repú­bli­ca para que pro­ce­da à pro­mul­ga­ção da lei den­tro de 48 horas. Nota-se, por­tan­to, que a rejei­ção por um quó­rum expres­si­vo é uma mani­fes­ta­ção inequí­vo­ca de obje­ção à deci­são presidencial.

Vol­tan­do ao pon­to prin­ci­pal, o gran­de núme­ro de vetos der­ru­ba­dos na ges­tão Bol­so­na­ro se expli­ca, sob a óti­ca polí­ti­ca, pela rela­ção con­tur­ba­da entre o gover­no e o par­la­men­to. É notó­rio que, ini­ci­al­men­te, o pre­si­den­te não quis for­mar uma coa­li­zão par­ti­dá­ria que pudes­se garan­tir mai­or ali­nha­men­to entre Exe­cu­ti­vo e Legis­la­ti­vo. Isso pode­ria ter evi­ta­do que vári­as leis tives­sem sido apro­va­das em desa­cor­do com a visão do gover­no. Embo­ra, des­de o ano pas­sa­do, o Palá­cio do Pla­nal­to tenha ade­ri­do ao pre­si­den­ci­a­lis­mo de coa­li­zão tra­di­ci­o­nal e deci­diu cons­truir uma base ali­a­da apoi­a­da em par­ti­dos polí­ti­cos, ain­da se veri­fi­cam mui­tas diver­gên­ci­as nes­sa relação.

Alguns aspec­tos de ordem pro­ces­su­al tam­bém con­tri­bu­em sobre­ma­nei­ra para esse ele­va­do núme­ro de reve­ses. Entre 2013 e 2015 hou­ve mudan­ças na for­ma de apre­ci­a­ção dos vetos. A pri­mei­ra delas foi a Reso­lu­ção nº 1 de 2013 do Con­gres­so Naci­o­nal que deu efi­cá­cia ao ins­ti­tu­to do tran­ca­men­to de pau­ta por vetos nas ses­sões con­jun­tas e a obe­di­ên­cia à ordem cro­no­ló­gi­ca para vota­ção. Até então, a deter­mi­na­ção cons­ti­tu­ci­o­nal de sobres­ta­men­to da pau­ta após 30 dias era “letra mor­ta”. O iní­cio da tra­mi­ta­ção de um veto depen­dia da lei­tu­ra em Ple­ná­rio, o que rara­men­te ocor­ria. Por essa razão, pou­cos eram real­men­te apre­ci­a­dos. Tam­pou­co impe­di­am a deli­be­ra­ção de outras maté­ri­as, como as peças orçamentárias.

Outra mudan­ça veio logo na sequên­cia com a Emen­da Cons­ti­tu­ci­o­nal nº 76 de 2013, que abo­liu o voto secre­to nas deli­be­ra­ções de vetos pre­si­den­ci­ais e pro­ces­sos de per­da de man­da­to par­la­men­tar. Tal mudan­ça teve refle­xo dire­to no com­por­ta­men­to dos con­gres­sis­tas. Com o voto aber­to, as cobran­ças da soci­e­da­de se tona­ram mais inten­sas. Dian­te de tal expo­si­ção, numa par­ce­la con­si­de­rá­vel dos casos, os par­la­men­ta­res ava­li­am que o ônus polí­ti­co de votar con­tra o gover­no é menor que desa­gra­dar seto­res inte­res­sa­dos na rejei­ção dos vetos.

A ter­cei­ra mudan­ça só viria a ocor­rer em 2015, por meio da Reso­lu­ção nº 1 de 2015, que ins­ti­tuiu a cédu­la ele­trô­ni­ca e a pos­si­bi­li­da­de de apre­sen­ta­ção de des­ta­ques para vota­ção em sepa­ra­do de itens espe­cí­fi­cos, o que ampli­ou as pos­si­bi­li­da­des de rejei­ção de dis­po­si­ti­vos. Ao des­ta­car um deter­mi­na­do item, ele dei­xa de ser deli­be­ra­do em blo­co com os demais na cédu­la, para ser apre­ci­a­do em vota­ção indi­vi­du­a­li­za­da. Isso pos­si­bi­li­ta mobi­li­za­ções con­cen­tra­das dos inte­res­sa­dos na der­ru­ba­da dos textos.

Esse con­jun­to de fato­res que inci­dem sobre o pro­ces­so deman­da diá­lo­go cons­tan­te e esfor­ço con­tí­nuo de arti­cu­la­ção polí­ti­ca. Em alguns casos, o gover­no tem sido obri­ga­do a acor­dar a rever­são de alguns vetos em tro­ca da pre­ser­va­ção de outros de mai­or impac­to. Por­tan­to, no qua­dro atu­al em que a fide­li­da­de par­la­men­tar não é auto­má­ti­ca, a nego­ci­a­ção é a solu­ção para evi­tar mai­o­res prejuízos.

*Jor­na­lis­ta e ana­lis­ta polí­ti­co. Pós-gra­du­a­do em pro­ces­so legis­la­ti­vo pelo Cefor, com 18 anos de expe­ri­ên­cia no acom­pa­nha­men­to dos tra­ba­lhos do Con­gres­so Naci­o­nal. Mem­bro do núcleo de aná­li­ses da Arko Advice.

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